A busca por indústrias que menos gastam água é cada vez mais importante para empresas que desejam reduzir custos, melhorar sua gestão ambiental e se preparar para cenários de escassez hídrica. No entanto, não existe uma lista única e definitiva dos setores que menos consomem água, porque o uso hídrico varia conforme o tipo de produto, a tecnologia empregada, a escala da planta, o nível de reúso e a eficiência operacional de cada processo.
Ainda assim, é possível identificar um padrão. Em geral, as indústrias que menos gastam água são aquelas com processos mais secos, menor necessidade de lavagem, menor uso de vapor, pouca troca térmica com água e menor geração de efluentes líquidos. Já setores como alimentos, bebidas, papel e celulose, químicos, petróleo, metais primários e têxteis tendem a usar mais água, especialmente quando há lavagem, cozimento, resfriamento, diluição, beneficiamento ou transporte hidráulico de materiais. O USGS, serviço geológico dos Estados Unidos, destaca que algumas das indústrias que usam grandes volumes de água são justamente alimentos, papel, químicos, petróleo refinado e metais primários.
No Brasil, o tema também é relevante. Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, a retirada total de água estimada em 2024 foi de 2.098,7 m³/s, ou 66,37 trilhões de litros por ano. A indústria respondeu por 9,9% desse volume, atrás da irrigação, com 50,3%, e do abastecimento humano, com 22,3%.
O que significa gastar menos água na indústria?
Antes de apontar quais setores gastam menos água, é necessário diferenciar três conceitos: retirada, consumo e lançamento de efluentes.
A retirada é o volume de água captado de rios, poços, reservatórios, concessionárias ou outras fontes. O consumo é a parcela que não retorna imediatamente ao corpo hídrico ou ao sistema, seja porque evaporou, foi incorporada ao produto, ficou no lodo ou foi perdida no processo. Já o lançamento de efluentes é o volume devolvido após o uso, normalmente depois de tratamento.
Essa diferença é essencial. Uma indústria pode retirar muita água, mas devolver grande parte como efluente tratado. Outra pode retirar menos, mas consumir uma fração maior porque incorpora água ao produto ou perde água por evaporação. Por isso, o termo “gastar água” pode significar coisas diferentes conforme o critério usado.
A matriz de coeficientes técnicos de uso da água no setor industrial brasileiro, elaborada com base na classificação CNAE 2.0, mostra exatamente essa separação entre retirada, consumo e efluente para diferentes atividades produtivas.
Quais indústrias tendem a gastar menos água?
As indústrias que tendem a gastar menos água são aquelas em que a água não é o principal insumo do processo produtivo. Normalmente, são operações de montagem, transformação mecânica, fabricação seca, acabamento simples ou processos com baixa necessidade de lavagem industrial.
Entre os setores que geralmente apresentam menor intensidade hídrica direta estão:
Indústrias de equipamentos eletrônicos, informática e produtos ópticos
A fabricação de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos costuma aparecer entre os setores com menor uso direto de água por unidade produzida, especialmente quando comparada a segmentos como alimentos, têxtil, papel e celulose ou produtos químicos.
Na matriz técnica de uso da água no setor industrial brasileiro, a fabricação de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos aparece com coeficiente de retirada de 0,0985 m³ por unidade produzida e consumo de 0,0197 m³ por unidade produzida.
Isso não significa que toda fábrica eletrônica use pouca água em qualquer situação. Processos específicos, como limpeza de componentes, salas limpas e fabricação de semicondutores, podem elevar bastante a demanda hídrica. Porém, em operações de montagem eletrônica, integração de componentes e produção de equipamentos, o uso direto de água tende a ser menor do que em setores que dependem de lavagem, cozimento, polpação, tingimento ou resfriamento intensivo.
Indústrias de cimento com processo a seco
A fabricação de cimento pode ter menor consumo de água quando utiliza processo a seco, principalmente em comparação com processos industriais muito dependentes de água. A matriz técnica brasileira aponta coeficientes de retirada de 0,08 a 0,40 m³ por tonelada produzida para fabricação de cimento, destacando que o limite inferior se refere ao processo de produção de cimento a seco.
Esse é um bom exemplo de como a tecnologia muda completamente o consumo hídrico. Uma mesma atividade industrial pode gastar mais ou menos água dependendo do processo produtivo adotado, do sistema de resfriamento, da limpeza industrial, do reaproveitamento interno e da eficiência da planta.
Indústrias de artefatos de concreto, cimento, fibrocimento e gesso
A fabricação de artefatos de concreto, cimento, fibrocimento, gesso e materiais semelhantes também pode apresentar demanda hídrica relativamente controlada, principalmente quando o processo é bem dosado e a água é usada de forma direta na mistura, cura ou acabamento.
Na matriz brasileira, a fabricação de artefatos de concreto aparece com coeficiente de retirada e consumo de 0,25 m³ por metro cúbico de concreto.
Nesse setor, a eficiência depende muito do controle de dosagem, da redução de perdas, da limpeza de equipamentos, da reutilização da água de lavagem e da gestão dos resíduos de concreto. Quando a indústria reaproveita água de lavagem e controla bem o processo, o consumo pode ser reduzido de forma significativa.
Indústrias de produtos de metal com processos predominantemente secos
A fabricação de produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos, tende a usar menos água do que metalurgia pesada, siderurgia, galvanoplastia ou fundição com resfriamento intenso. Isso ocorre porque muitas operações são mecânicas, como corte, dobra, soldagem, montagem, usinagem e acabamento.
Na matriz técnica, a fabricação de produtos de metal aparece com coeficiente de retirada de 2,65 m³ por tonelada produzida, consumo de 1,24 m³ por tonelada e efluente de 1,41 m³ por tonelada.
Apesar disso, existem exceções importantes. Processos de tratamento de superfície, pintura, decapagem, galvanização, lavagem química e resfriamento podem elevar bastante o uso de água. Por isso, o consumo real depende mais do processo do que do nome do setor.
Indústrias de peças e acessórios automotivos
A fabricação de peças e acessórios para veículos automotores pode apresentar consumo hídrico menor do que a produção completa de veículos, caminhões ou ônibus. A matriz de coeficientes técnicos aponta, para peças e acessórios automotivos, retirada de 1,39 m³ por tonelada produzida, consumo de 0,53 m³ por tonelada e efluente de 0,87 m³ por tonelada.
Esse setor costuma envolver usinagem, estampagem, soldagem, montagem, tratamento superficial e pintura, dependendo da peça. Empresas com processos mais secos e controle eficiente de lavagem tendem a consumir menos água. Já plantas com pintura, banhos químicos ou tratamento superficial precisam de maior atenção à gestão hídrica e ao tratamento de efluentes.
Indústrias de máquinas e equipamentos
A fabricação de máquinas e equipamentos pode ter consumo moderado, principalmente quando o processo é baseado em montagem, caldeiraria, usinagem, soldagem e integração de componentes. Na matriz brasileira, esse grupo aparece com retirada de 2,2 a 9,7 m³ por unidade produzida, consumo de 0,4 a 1,9 m³ por unidade e efluente de 1,8 a 7,8 m³ por unidade.
A variação é grande porque uma máquina simples e uma máquina industrial complexa têm realidades produtivas diferentes. Ainda assim, quando comparado a setores que usam água como parte intensa do processo, esse segmento pode operar com menor pressão hídrica direta, desde que controle limpeza, testes hidráulicos, pintura, resfriamento e tratamento de superfície.
Setores que normalmente gastam mais água
Para entender quais indústrias gastam menos água, também é útil observar os setores mais intensivos. Segundo o USGS, grandes usuários industriais de água incluem alimentos, papel, químicos, petróleo refinado e metais primários.
No Brasil, a matriz de coeficientes técnicos mostra altos valores em diversas atividades. A preparação e fiação de fibras têxteis, quando integrada ao beneficiamento, aparece com retirada entre 115 e 118 m³ por tonelada produzida. A tecelagem integrada também apresenta valores elevados, entre 42 e 48 m³ por tonelada.
A fabricação de celulose e pastas para papel aparece com retirada entre 25,9 e 46,8 m³ por tonelada seca ao ar, enquanto a fabricação de papel, cartolina e papel-cartão aparece com retirada entre 10 e 46,3 m³ por tonelada de papel.
Também há setores alimentícios com uso relevante de água. A fabricação de conservas de frutas, legumes e outros vegetais aparece com retirada de 18,75 m³ por tonelada de matéria-prima, enquanto a fabricação e refino de açúcar pode variar de 8 a 35 m³ por tonelada de cana processada, de acordo com a tecnologia da usina.
Por que algumas indústrias gastam menos água?
As indústrias que gastam menos água geralmente possuem algumas características em comum. Elas dependem menos de lavagens contínuas, não usam água como principal veículo de transporte de matéria-prima, têm menor necessidade de resfriamento evaporativo, não incorporam grandes volumes de água ao produto e geram menos efluentes líquidos.
Outra característica importante é a possibilidade de operar com sistemas fechados. Circuitos fechados de resfriamento, recirculação de água de lavagem, reaproveitamento de efluentes tratados e automação de consumo reduzem a necessidade de captação nova.
A UNESCO aponta que, no mundo, a agricultura responde por cerca de 70% das retiradas de água doce, seguida pela indústria, com pouco menos de 20%, e pelos usos domésticos, com cerca de 12%. Isso mostra que, embora a indústria não seja o maior usuário global de água, ela tem papel relevante na eficiência hídrica e na redução da pressão sobre os recursos hídricos.
Reúso de água muda o ranking das indústrias
Uma indústria de setor intensivo pode gastar menos água nova do que uma indústria teoricamente menos intensiva, desde que tenha um sistema eficiente de reúso. Por isso, o ranking de consumo não depende apenas do segmento, mas também da gestão hídrica.
O reúso permite aproveitar efluentes tratados em torres de resfriamento, lavagem de pisos, irrigação de áreas verdes, descargas sanitárias, processos auxiliares, lavagem de equipamentos e até em processos industriais específicos, quando a qualidade da água atende aos requisitos técnicos.
A Confederação Nacional da Indústria destaca que a variabilidade do consumo de água conforme a atividade CNAE é relevante para avaliar o potencial de uso de efluentes tratados no abastecimento industrial.
Na prática, empresas que usam flotadores, filtros, decantadores, biorreatores, sistemas físico-químicos, osmose reversa ou ultrafiltração podem reduzir a dependência de água potável ou água bruta, desde que o reúso seja tecnicamente seguro e ambientalmente adequado.
Como uma indústria pode gastar menos água?
A redução do consumo hídrico começa com medição. Não é possível controlar bem aquilo que não é medido. Por isso, a indústria deve instalar hidrômetros setoriais, acompanhar consumo por área, identificar perdas e mapear os principais pontos de uso.
Depois, é necessário atuar nos processos que mais consomem. Em muitas plantas, os maiores usos estão em lavagem, resfriamento, geração de vapor, torres de resfriamento, limpeza de tanques, preparação de soluções, tratamento de gases e descarte de efluentes.
As principais medidas incluem recircular água de processo, substituir lavagens contínuas por lavagens controladas, usar bicos de alta eficiência, reaproveitar água de enxágue, automatizar válvulas, recuperar condensado, tratar efluentes para reúso e adotar circuitos fechados de resfriamento.
Também é importante revisar o tratamento de efluentes. Quanto melhor for o tratamento, maior tende a ser a possibilidade de reúso interno. Equipamentos como flotadores, filtros decantadores, filtros industriais, biorreatores e sistemas de membranas podem ser usados para adequar a qualidade da água a diferentes finalidades.
Conclusão
As indústrias que menos gastam água, em geral, são aquelas com processos mais secos, menor necessidade de lavagem, menor dependência de resfriamento com água e menor geração de efluentes líquidos. Entre os setores que tendem a ter menor consumo hídrico direto estão equipamentos eletrônicos, produtos de informática e ópticos, cimento com processo a seco, artefatos de concreto, produtos de metal, peças automotivas e máquinas e equipamentos.
No entanto, a resposta correta depende sempre do processo produtivo. Uma fábrica moderna, com reúso e controle hídrico, pode consumir muito menos água do que outra do mesmo setor que opera com processos antigos e sem recirculação.
Por isso, mais importante do que apenas perguntar quais indústrias gastam menos água é avaliar como cada planta industrial mede, trata, recircula e reutiliza seus recursos hídricos. A eficiência hídrica deixou de ser apenas uma prática ambiental e passou a ser um fator de competitividade, redução de custos e segurança operacional.
Fontes utilizadas
- Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, Relatório Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil 2025.
- USGS, Industrial Water Use.
- UNESCO, World Water Development Report 2024, dados sobre demanda e uso da água.
- Ministério do Meio Ambiente e CNI, Uso da Água no Setor Industrial Brasileiro: Matriz de Coeficientes Técnicos.
- Confederação Nacional da Indústria, Reúso de Efluentes.
